Era uma noite quente, uma dessas de agosto, e eu não dormi bem. Foi um olho fechado e outro aberto. Passei em claro uma noite escura planejando minhas palavras para ela. Dormi fora de casa, no telhado. Eu gostava disso, ia para lá quando me sentia insignificante e o vento fresco me consolava. Mas, naquela noite, eu estava mesmo era aflito pela chegada manhã.
De madrugada a chuva saltou do céu. Eu podia ver, do telhado, as gotas d’água caindo lentamente. Elas molhavam meu corpo com cuidado e eu me sentia o máximo por tomar banho de chuva. Ela, Vitória, também adorava. Faltava pouco para que eu me reencontrasse com ela, mas meus planos…
A chuva, que já era forte, cessou minutos antes para o dia raiar. Por entre as nuvens passaram alguns raios do sol, porém, o tempo, naquele dia, permaneceu nublado até se escurecer por completo.
Às sete horas eu desci do telhado e entrei no banheiro. Sequei-me. Coloquei as roupas que tinha separado e me lancei à rua apressado; ela tinha por costume chegar cedo ao colégio e eu não queria me atrasar. Pena que saí tão rápido de casa que me esqueci de calçar o par de sapatos que tinha conseguido emprestado. Esquecer-me dos sapatos, isso prova quem sou – falava comigo.
Próximo a entrada do colégio eu me escondi, queria vê-la sem ser visto. Todos os colegiais usavam seus sapatos pretos, mas a julgar pelo olhar, eles pareciam estar inteiramente vestidos de preto.
Os meninos e as meninas estavam sentados, frente à instituição de ensino, nos banquinhos de cimento, apoiados uns nos outros, desolados. Os mestres cancelaram as aulas e se iam, um a um, arrastando os pés e os olhos no chão. Eles fitavam as ruas de terra e desapareciam pelas esquinas, afundando os pés na lama – naquele tempo todas as ruas eram de terra, agora só algumas. Mas não me importava se eles estavam felizes ou não. Eu procurava por Vitória e era só isso.
Eu caminhava por entre os colegiais e eles, tristes, nem percebiam que eu estava descalço. Seria vergonhoso para mim se eles me percebessem assim. Ainda havia os polícias e suas viaturas em torno do colégio, mas tão sérios e concentrados nem notaram a ausência dos meus sapatos. Usá-los era fazer parte da sociedade, e as cores deles representavam a sua classe social, como na Roma Antiga.
Enfim, continuei minha busca. Como disse, ninguém me percebia. E logo que avistei uns belos cabelos loiros, corri na direção deles, mas aqueles fios não eram os dela.
Segui procurando por Vitória. Atravessei a tristeza dos colegiais. Passei em silêncio pelos concentrados polícias. Empurrei o portão de entrada do colégio e pisei com os dois pés em um rastro de sangue.
Não tive medo, mas entrei sufocado. Coração apertado. Eu me apoiava nas paredes e seguia as manchas vermelho-fumegantes que terminavam à porta do banheiro feminino. Lá me encostei ao lado da porta e tentei ouvir alguém. Ninguém falava. Tentei abri-la. Trancada. Dei um chute nela. Abriu. Quando entrava no banheiro, tocaram-me no ombro e arrastaram-me para fora. Eram os polícias que precisavam isolar o local.
Afora do colégio ninguém mais se lamentava. Vitória foi levada para o hospital, mas o criminoso ainda não foi capturado, diziam os polícias.
Eu fiquei confuso. Vitória? A minha? Corri para a casa dela. Tudo fechado. Entrei pelos fundos. O pai e mãe choravam. Meu coração apertava pouco a pouco um pouco mais. Fiquei escondido para ouvir o que os velhos diziam. Só gemiam. Então me revelei. Os dois se assustaram. A mãe me atacou, o pai correu. Escapei de dois golpes de vassoura, três copos de vidro que explodiram na parede, levei uma panelada na cara, caí. Os velhos me levaram a um quarto, amarram-me na cama e taparam-me a boca com um pano. Talvez acreditassem que fosse eu o estuprador da filha que estava fugido e voltara para destruir de vez a família – afinal, eu estava descalço – ou, talvez, apenas precisassem fazer alguém sofrer o que eles sofriam enquanto a filha se recuperava do seu sofrimento no hospital. Eu, quem queria apenas saber o que havia acontecido à garota, quem só queria dizer o que sentia por ela, morri.
O velho fechou as janelas dos fundos, ligou o rádio, aumentou o volume do aparelho e fechou a porta do quarto. Ele gritava e, ao mesmo tempo, tentava abafar os gritos. A velha sentou-se ao meu lado na cama, disse que meus olhos eram bonitos, beijou-me na testa e fez uma oração. As lágrimas dela molhavam meu rosto enquanto ela me asfixiava. Ela apertava minha boca e meu nariz com muita força. Ódio quente pingava dos olhos dela e desejo de amor falecia no meu peito.
Os olhos de Vitória aprisionam tudo o que sinto, eu queria ter dito isso a ela. Mas a gente vai guardando as coisas, esperando o dia certo e de repente tudo acaba. É a derrota que a gente encontra.
Julian Lawrence
