08
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Desejos e Planos Falecem (Julian Lawrence)

the_outsider_estrangeira_grupo_socialEra uma noite quente, uma dessas de agosto, e eu não dormi bem. Foi um olho fechado e outro aberto. Passei em claro uma noite escura planejando minhas palavras para ela. Dormi fora de casa, no telhado. Eu gostava disso, ia para lá quando me sentia insignificante e o vento fresco me consolava. Mas, naquela noite, eu estava mesmo era aflito pela chegada manhã.

De madrugada a chuva saltou do céu. Eu podia ver, do telhado, as gotas d’água caindo lentamente. Elas molhavam meu corpo com cuidado e eu me sentia o máximo por tomar banho de chuva. Ela, Vitória, também adorava. Faltava pouco para que eu me reencontrasse com ela, mas meus planos…

A chuva, que já era forte, cessou minutos antes para o dia raiar. Por entre as nuvens passaram alguns raios do sol, porém, o tempo, naquele dia, permaneceu nublado até se escurecer por completo.

Às sete horas eu desci do telhado e entrei no banheiro. Sequei-me. Coloquei as roupas que tinha separado e me lancei à rua apressado; ela tinha por costume chegar cedo ao colégio e eu não queria me atrasar. Pena que saí tão rápido de casa que me esqueci de calçar o par de sapatos que tinha conseguido emprestado. Esquecer-me dos sapatos, isso prova quem sou – falava comigo.

Próximo a entrada do colégio eu me escondi, queria vê-la sem ser visto. Todos os colegiais usavam seus sapatos pretos, mas a julgar pelo olhar, eles pareciam estar inteiramente vestidos de preto.

Os meninos e as meninas estavam sentados, frente à instituição de ensino, nos banquinhos de cimento, apoiados uns nos outros, desolados. Os mestres cancelaram as aulas e se iam, um a um, arrastando os pés e os olhos no chão. Eles fitavam as ruas de terra e desapareciam pelas esquinas, afundando os pés na lama – naquele tempo todas as ruas eram de terra, agora só algumas. Mas não me importava se eles estavam felizes ou não. Eu procurava por Vitória e era só isso.

Eu caminhava por entre os colegiais e eles, tristes, nem percebiam que eu estava descalço. Seria vergonhoso para mim se eles me percebessem assim. Ainda havia os polícias e suas viaturas em torno do colégio, mas tão sérios e concentrados nem notaram a ausência dos meus sapatos. Usá-los era fazer parte da sociedade, e as cores deles representavam a sua classe social, como na Roma Antiga.

Enfim, continuei minha busca. Como disse, ninguém me percebia. E logo que avistei uns belos cabelos loiros, corri na direção deles, mas aqueles fios não eram os dela.

Segui procurando por Vitória. Atravessei a tristeza dos colegiais. Passei em silêncio pelos concentrados polícias. Empurrei o portão de entrada do colégio e pisei com os dois pés em um rastro de sangue.

Não tive medo, mas entrei sufocado. Coração apertado. Eu me apoiava nas paredes e seguia as manchas vermelho-fumegantes que terminavam à porta do banheiro feminino. Lá me encostei ao lado da porta e tentei ouvir alguém. Ninguém falava. Tentei abri-la. Trancada. Dei um chute nela. Abriu. Quando entrava no banheiro, tocaram-me no ombro e arrastaram-me para fora. Eram os polícias que precisavam isolar o local.

Afora do colégio ninguém mais se lamentava. Vitória foi levada para o hospital, mas o criminoso ainda não foi capturado, diziam os polícias.

Eu fiquei confuso. Vitória? A minha? Corri para a casa dela. Tudo fechado. Entrei pelos fundos. O pai e mãe choravam. Meu coração apertava pouco a pouco um pouco mais. Fiquei escondido para ouvir o que os velhos diziam. Só gemiam. Então me revelei. Os dois se assustaram. A mãe me atacou, o pai correu. Escapei de dois golpes de vassoura, três copos de vidro que explodiram na parede, levei uma panelada na cara, caí. Os velhos me levaram a um quarto, amarram-me na cama e taparam-me a boca com um pano. Talvez acreditassem que fosse eu o estuprador da filha que estava fugido e voltara para destruir de vez a família – afinal, eu estava descalço – ou, talvez, apenas precisassem fazer alguém sofrer o que eles sofriam enquanto a filha se recuperava do seu sofrimento no hospital. Eu, quem queria apenas saber o que havia acontecido à garota, quem só queria dizer o que sentia por ela, morri.

O velho fechou as janelas dos fundos, ligou o rádio, aumentou o volume do aparelho e fechou a porta do quarto. Ele gritava e, ao mesmo tempo, tentava abafar os gritos. A velha sentou-se ao meu lado na cama, disse que meus olhos eram bonitos, beijou-me na testa e fez uma oração. As lágrimas dela molhavam meu rosto enquanto ela me asfixiava. Ela apertava minha boca e meu nariz com muita força. Ódio quente pingava dos olhos dela e desejo de amor falecia no meu peito.

Os olhos de Vitória aprisionam tudo o que sinto, eu queria ter dito isso a ela. Mas a gente vai guardando as coisas, esperando o dia certo e de repente tudo acaba. É a derrota que a gente encontra.

Julian Lawrence

08
ago
09

Neve (Orhan Pamuk)

neve_capaTítulo: Neve
Autor: Orhan Pamuk
Ano: 2006
Editora: Companhia das Letras

Neve tem como personagem principal o poeta turco Ka, que se radicou na Alemanha devido a problemas políticos de sua juventude em Istambul, mas volta à sua terra natal para o enterro de sua mãe, recentemente falecida, e com o intuito de escrever uma matéria para um jornal alemão sobre as eleições municipais da pequena cidade fronteiriça de Kars e investigar o curioso caso das jovens que vem cometendo suicídio em nome do islã.

O motivo declarado para o suicídio das jovens é devido à proibição do uso do véu nas instituições educacionais, mas no decorrer de sua estadia em Kars, nosso poeta irá perceber que existe muito mais por trás de uma simples questão religiosa. O véu representa uma espécie de símbolo do islã político na luta contra os secularistas turcos, representados pelo governo, deflagrando o intenso conflito em um país dividido por uma parte que almeja uma maior ocidentalização da Turquia e outra que tem aversão à ética ocidental e reforça as tradições islâmicas.

Os secularistas são identificados com os ideais do líder fundador da República Turca Kemal Atatürk, um admirador do iluminismo europeu, que teve por objetivo principal a construção de um estado laico e nos moldes políticos do ocidente. O outro lado tem como principal representante no livro o rebelde conhecido como Azul, um personagem fictício, mas que parece representar bem a idealização ocidental de um rebelde islâmico.

A questão das jovens suicidas será uma peça chave no decorrer da obra, pois suscita discussões envolvendo o conflito cultural entre o “ocidente” e o “oriente”, religião, política, etc.

De fato, a Turquia é um país exemplo disso, visto que uma pequena parte de seu território está geograficamente no lado europeu e absorve muito mais diretamente o modo de pensar ocidental, batendo de frente com a tradição cultural islâmica e a respectiva ética de toda a Anatólia.

Acredito que este aspecto do livro seja uma de suas principais virtudes, pois nós ocidentais estamos muito acostumados a julgar culturas diferentes da nossa sempre à nossa maneira. Em uma das mais belas frases do livro, o personagem Fazil, jovem estudante que faz amizade com Ka e é visto como um defensor das tradições islâmicas, faz uma verdadeira síntese de tudo isso, pois, segundo ele, “ninguém poderia nos entender de tão longe”.

Apenas três dias, mas que parecera uma eternidade, segundo o próprio poeta, foi o tempo que ele passou em Kars. Nesse meio tempo, ele se apaixonou perdidamente por Ipek, uma antiga colega de classe, e presenciou um violento golpe militar arquitetado por um visionário ator de teatro, que se aproveitou do fechamento das estradas da cidade devido o rigor do inverno. No decorrer desses eventos, Ka se vê como uma peça chave no desenrolar dos acontecimentos da cidade, sempre tentando sobreviver às acusações de ser ateu com a idéia de realizar seu amor por Ipek e ir com ela para a Alemanha. Além disso, Ka voltou a escrever poemas, coisa que há muito ele não conseguia fazer, mas em Kars sua inspiração voltou com muita intensidade.

Ao escrever seus novos poemas, Ka ficou convencido de que as pessoas se assemelham a um floco de neve, pois, a priori, todos parecem iguais, mas precisamos olhar bem de perto para enxergarmos o indivíduo e sua singularidade, assim como um floco de neve e sua complexa forma quando cristaliza. Sendo assim, Ka reuniu em sua coletânea de poemas um conjunto de singularidades complexas, captadas em uma cidade quase esquecida, mas que tiraram ele de uma espécie de sono profundo.

Nesses três dias em Kars, Pamuk nos mostra um livro com alto teor crítico e inúmeras referências aos problemas étnicos, raciais e políticos da Turquia. Sem dúvidas, Neve é um livro muito interessante sob muitos aspectos, com um pano de fundo muito atual e relevante, e mesmo sendo o texto um pouco repetitivo o livro não perde a sua beleza ou importância.

Leonardo Segura




 

fevereiro 2010
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