Título: O Estrangeiro
Autor: Albert Camus
Ano: 2005
Editora: Record
O Estrangeiro, publicado em 1942, pode ser visto como uma obra que se insere no contexto do pensamento existencialista da primeira metade do século XX. Sua história resume a vida de um homem comum (Meursault), cercado por pessoas comuns e que levam uma vida comum. Nesse sentido, a indiferença com que Meursault encara a vida e os eventos que lhe acontecem, caracterizam o chamado absurdismo, que pode ser visto como a constatação de que não há sentido na vida e que todas as explicações já experimentadas pelo homem (religiões, misticismo, nacionalismo, etc.) não significam nada.
Sua narrativa começa com o personagem principal, Meursault, recebendo um telegrama do asilo onde sua mãe se encontrava dizendo que ela havia morrido, constituindo-se, assim, na primeira parte do livro. A notícia não o abala e, na verdade, nada significa para ele. Após o enterro, Meursault continua sua vida com a mesma indiferença de antes, sem demonstrar emoções ou emitir opiniões a respeito do que o cerca. Essa apatia se reflete claramente em seu relacionamento com Marie e na amizade mantida com Raymond, seu vizinho.
A própria construção da narrativa em períodos curtos contribui para evidenciar o sentimento de indiferença transmitido por Meursault, pois todos os acontecimentos por ele vivenciados são mostrados de maneira meramente descritiva, sem apelo sentimental, como por exemplo logo no início do livro:
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.
A segunda parte do livro narra os acontecimentos após o incidente que coloca Meursault na prisão, sendo que isto traz, em um primeiro momento, certa carga de nostalgia, seja em relação ao seu relacionamento com Marie, seja em relação a um passado mais remoto. Porém, tais lembranças trazem consigo a seguinte pergunta: vale a pena perder tempo com tais coisas?
Na verdade, os sentimentos nostálgicos vivenciados por Meursault servem apenas ao intuito de fazer com que o tempo passe. Sendo assim, o próprio personagem admite que uma pessoa que tivesse vivido apenas um dia, poderia passar até cem anos na prisão, dada a grande quantidade de detalhes que nos passam desapercebida ao longo do dia e que só iremos dar conta em uma situação de cárcere.
Quando comparece ao seu julgamento, Meursault mantém sua indiferença, irritando-se tanto com seu advogado de defesa, quanto com a promotoria. Nesse ponto, cabe uma observação: a insistência do promotor em apontar a frieza que Meursault demonstra ao se deparar com a morte de sua mãe, como evidência de sua monstruosidade, que culminou com o assassinato sem motivo de um árabe. Dessa maneira, percebe-se o estranhamento entre duas visões de mundo, onde o promotor representa os valores de mundo sob a égide da moral cristã, e Meaursault, que ignora seu oponente e nada tem a dizer ou a pensar a respeito, chocando a sociedade que vive.
Que importa a morte dos outros, as relações de parentesco e as vontades de um deus? Nada, pois os significados que os seres humanos dão a estas coisas com o intuito de justificar a existência são inúteis, visto que a própria existência, no que diz respeito ao indivíduo, não possui sentido algum. Portanto, o personagem criado por Camus não se traduz no que o promotor procurava acusá-lo, um monstro, mas sim em uma pessoa que vive indiferente aos valores de sua sociedade.
Leonardo Segura

Muito bem escrito seu texto, Leo. Você foi breve, rápido e coeso ao descrever cenas e características do livro.
Além disso, em nenhum momento você perdeu o sentido do que queria transmitir, a indiferença da personagem – Meursault.
Meus parabéns.
Só não gostei do uso dos parênteses em “(religiões, misticismo, nacionalismo, etc.).” Em situações como essa o uso de
dois pontos seria melhor, embora sua opção tenha garantido a velocidade da informação.
Me interessei pela leitura do livro. Sabemos de muitos casos de indiferença do ser humano diante da morte
de seu semelhante. Mas o caso da personagem principal desse livro é bem curioso, pelo o que vejo.
“(…) visto que a própria existência, no que diz respeito ao indivíduo, não possui sentido algum.” Essa frase do seu texto
me intrigou bastante.
Espero gostar do livro.
Até mais
Um grande abraço