03
mai
10

O Estrangeiro (Albert Camus)

o-estrangeiro

Título: O Estrangeiro

Autor: Albert Camus

Ano: 2005

Editora: Record

O Estrangeiro, publicado em 1942, pode ser visto como uma obra que se insere no contexto do pensamento existencialista da primeira metade do século XX. Sua história resume a vida de um homem comum (Meursault), cercado por pessoas comuns e que levam uma vida comum. Nesse sentido, a indiferença com que Meursault encara a vida e os eventos que lhe acontecem, caracterizam o chamado absurdismo, que pode ser visto como a constatação de que não há sentido na vida e que todas as explicações já experimentadas pelo homem (religiões, misticismo, nacionalismo, etc.) não significam nada.

Sua narrativa começa com o personagem principal, Meursault, recebendo um telegrama do asilo onde sua mãe se encontrava dizendo que ela havia morrido, constituindo-se, assim, na primeira parte do livro. A notícia não o abala e, na verdade, nada significa para ele. Após o enterro, Meursault continua sua vida com a mesma indiferença de antes, sem demonstrar emoções ou emitir opiniões a respeito do que o cerca. Essa apatia se reflete claramente em seu relacionamento com Marie e na amizade mantida com Raymond, seu vizinho.

A própria construção da narrativa em períodos curtos contribui para evidenciar o sentimento de indiferença transmitido por Meursault, pois todos os acontecimentos por ele vivenciados são mostrados de maneira meramente descritiva, sem apelo sentimental, como por exemplo logo no início do livro:

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

A segunda parte do livro narra os acontecimentos após o incidente que coloca Meursault na prisão, sendo que isto traz, em um primeiro momento, certa carga de nostalgia, seja em relação ao seu relacionamento com Marie, seja em relação a um passado mais remoto. Porém, tais lembranças trazem consigo a seguinte pergunta: vale a pena perder tempo com tais coisas?

Na verdade, os sentimentos nostálgicos vivenciados por Meursault servem apenas ao intuito de fazer com que o tempo passe. Sendo assim, o próprio personagem admite que uma pessoa que tivesse vivido apenas um dia, poderia passar até cem anos na prisão, dada a grande quantidade de detalhes que nos passam desapercebida ao longo do dia e que só iremos dar conta em uma situação de cárcere.

Quando comparece ao seu julgamento, Meursault mantém sua indiferença, irritando-se tanto com seu advogado de defesa, quanto com a promotoria. Nesse ponto, cabe uma observação: a insistência do promotor em apontar a frieza que Meursault demonstra ao se deparar com a morte de sua mãe, como evidência de sua monstruosidade, que culminou com o assassinato sem motivo de um árabe. Dessa maneira, percebe-se o estranhamento entre duas visões de mundo, onde o promotor representa os valores de mundo sob a égide da moral cristã, e Meaursault, que ignora seu oponente e nada tem a dizer ou a pensar a respeito, chocando a sociedade que vive.

Que importa a morte dos outros, as relações de parentesco e as vontades de um deus? Nada, pois os significados que os seres humanos dão a estas coisas com o intuito de justificar a existência são inúteis, visto que a própria existência, no que diz respeito ao indivíduo, não possui sentido algum. Portanto, o personagem criado por Camus não se traduz no que o promotor procurava acusá-lo, um monstro, mas sim em uma pessoa que vive indiferente aos valores de sua sociedade.

Leonardo Segura


1 Resposta para “O Estrangeiro (Albert Camus)”


  1. 1 Cabello
    10/06/2010 às 03:11

    Muito bem escrito seu texto, Leo. Você foi breve, rápido e coeso ao descrever cenas e características do livro.
    Além disso, em nenhum momento você perdeu o sentido do que queria transmitir, a indiferença da personagem – Meursault.

    Meus parabéns.

    Só não gostei do uso dos parênteses em “(religiões, misticismo, nacionalismo, etc.).” Em situações como essa o uso de
    dois pontos seria melhor, embora sua opção tenha garantido a velocidade da informação.

    Me interessei pela leitura do livro. Sabemos de muitos casos de indiferença do ser humano diante da morte
    de seu semelhante. Mas o caso da personagem principal desse livro é bem curioso, pelo o que vejo.

    “(…) visto que a própria existência, no que diz respeito ao indivíduo, não possui sentido algum.” Essa frase do seu texto
    me intrigou bastante.

    Espero gostar do livro.

    Até mais

    Um grande abraço


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.