- Cá entre nós, v
ocê já sabia, não?
Ele parou de andar. Virou-se para ela, ainda sem acreditar no que havia escutado. Olhou-a ali, sentada absurdamente confortável para um momento daqueles. O rabo de cavalo de sempre, a blusa em tons vermelhos, jeans. Ali estava ela, calma e sincera. Era isso que o havia encantado desde o primeiro instante, essa facilidade de dizer o que pensa, sem se importar. Sem se importar demais. Ela nunca se importou: “Tudo nessa vida passa”. Frase ridícula. Algumas coisas não passam. É assim, algumas coisas na vida entram, e se fixam em algum lugar de nós e simplesmente não passam. Mas nela não; tudo acabava, com a mesma facilidade que um dia começou.
Ela suspirou pelo silêncio, pegou a bolsa no chão e procurou rapidamente algo. Tirou a caixa de metal de cigarrilhas, um isqueiro prata que ele havia dado de aniversário. Acendeu, tragou, soltou e olhou de perto para a ponta da cigarrilha.
- Essa é a melhor de todas. Sente só esse cheiro…
Era mesmo inacreditável. A facilidade com que ela levava a vida, a simplicidade dos fatos. Ele sabia décor o discurso, que a de baunilha era enjoativa, que a tradicional era muito masculina, mas que a de café, era fantástica. Quantas e quantas horas passaram fumando juntos, na varanda, fim de tarde de quinta feira, quando nenhum dos dois trabalhava depois das sete. Falavam sobre nada. Sobre os sonhos, sobre a conta de luz alta, sobre uma possível ida a praia no feriado. E ela sempre começava o diálogo com o discurso da cigarrilha.
Sem tirar os olhos dela, ele resolveu sentar na poltrona da frente. Ficaram em silêncio até ela terminar de fumar. Ela o olhou sem muito interesse, levantou e foi até a cozinha. Voltou com dois pratos, cada um com uma fatia de pão de forma, sem as cascas, um patê de atum mal colocado e um café requentado. Ela nunca se dava ao trabalho de fazer café. Se ele não fizesse logo pela manha, ela tomava do dia anterior, reclamava, fazia cara feia, e ia para o trabalho como se, por acaso, tivesse perdido um botão.
- Custa muito para você fazer o café um dia? Hein?
- Oras, mas eu não me importo de tomar requentado…
-Como não? Sempre reclama, faz cara feia… Você é assim… Você reclama e não faz anda para mudar. Com essa sua mania de achar que ninguém é importante além de você. Já parou para pensar que talvez eu me importe de tomar requentado?
- Então, faça você mesmo o café. Que coisa, você complica tudo…
- Não. Chama-se gentileza; morar com alguém, agradar ao outro. Não é complicado, é um café!
Já tinha açúcar e já estava mexido, e ela entregou a xícara como se aquilo fosse mais do que o necessário. Sentou-se novamente, bebeu com barulho e comeu a fatia deixando os cantos da boca sujos. Ele a olhou com nojo, sem demonstrá-lo. Tanta coisa nela o irritava há tanto tempo, e ainda assim não podia deixá-la ir. Não queria. Bebia um vinho, lia um livro, ouvia música para não escutar a cantoria durante o banho. Contratou uma faxineira, para não brigar mais pelo lixo. Olhou-a ali, toda suja, cheirando a cigarro, com aquela arrogância típica, aquela independência que magoa, e sentiu até raiva dela. Do desleixo dela. Raiva do pensamento de que ele passaria logo, como tudo na vida. Raiva por saber que ele havia realmente passado.
- Bem, estava bom. A maionese era velha, tava no fim, mas… Comível, eu diria.
Limpou com a mão a boca e o olhou. Foi um olhar rápido, daqueles que precisa se mostrar como despreocupado. Viu-o ali, o fundo verde da parede o deixando mais magro, mais parado, mais dependente. Sentiu uma certeza da decisão, certeza dos seus atos e pensou o que sempre pensava nessas horas “Tudo nessa vida passa”. Levantou-se resolvida, pegou as duas mochilas, avisou que Pedro voltaria para levar as caixas, mas que não se preocupasse, viria quando ele não estivesse em casa, assim não haveria constrangimentos. Sempre direta, sem enrolação, sem se preocupar em ser gentil. Destrancou a porta e se virou para vê-lo, para confirmar mais uma vez seus passos:
- Eu prefiro as de baunilha. Deixam o ar mais doce. Não sei, é como se a vida tivesse algo mais para nos dar.
Ele falou calmamente, como se não a quisesse magoar; continuou sentado, a porta se fechou e, depois de um gole de café frio, ele suspirou e finalmente sorriu. No metrô que vai para Luz, ela chorou desesperadamente, molhando o vermelho e fazendo barulho. O rapaz a olhou, seco, e preferiu ir de pé, a sentar-se ao seu lado.
Luna Lobão

Há tempos não passeava por aqui…Boa crônica. Vejo nos personagens o orgulho humano de se ocultarem em máscaras rotineiras para nõa desvendar sua essência. Neste caso uma das essências surge com as lágrimas.
Bjs e até breve
Olá, Luna Lobão. Li seu texto aqui no Lietterata, minha opinião é:
“Olhou-a ali, sentada absurdamente confortável para um momento daqueles.” Eu pergunto: que momento?
“Era isso que o havia encantado desde o primeiro instante, (…).” Eu pergunto: que instante?
“Olhou-a ali” Eu pergunto: onde?
“Viu-o ali” eu pergunto: em um texto que tem em um de seus pontos a descrição, por que esse “ali”, tão repetitivo, não nos descreve nada. esse instante, esse trem que aparece só no título, a cozinha, o café, as cores, tudo tão vago. Nada do que foi descrito dialoga com a situação, e que situação é essa? Que instante, que momento? Repito.
Cá, entre nós, do que eu, o leitor, sabia no seu texto?
Ao meu ver, você descreveu um momento particular, só seu.
Oi Cabello. Bem, antes de tudo, obrigada por ler, e por dar sua opinião! Deu-me muito o que pensar…
Bem, na verdade os “ali”s do texto requerem, de fato, um pouco mais da sua imaginação do que das minhas palavras; apesar de ser descritivo o texto, e vc está certo, porque eu adoro descrever, opto por descrições subjetivas: eu não vou te dar tudo pronto, nós vamos criar juntos. “Olhou-a ali” = ali na sua frente, ali na sentada (como se nota depois), ali. Ali no sentido de estar presente. Não é para saber onde, não há endereço nem coordenadas. É simplesmente ali.
O “primeiro instante” faz parte de um breve e sutil flash back. Ele relembra uma parte da personalidade dela que sempre existiu desde o primeiro instante: que ele a viu, que ela a conheceu, que ela entrou na sua vida. O primeiro instante: escolha voce, leitor, qual é ele.
o trem do título, que é o metrô, se ler um pouco melhor, percebe que além de dar nome a crônica, aparece no parágrafo final: ela, no metrô, chora pela separação do casal.
“absurdamente confortável par aum momento daqueles”… bem, não se explica no começo, mas a idéia era que se notasse depois que é um momento de rompimento. separação. levar as suas coisas embora da antiga casa. O que eu quis destacar é a frieza dela de estar confortável em um momento que para a maioria das pessoas, é tao incomodo.
Vc diz ‘tudo tão vago’. Acho que foi escrito como crítica, mas se me permite, tomo como elogio. Adoro ser vaga. Adoro mais do que escrever, forçar quem lê a imaginar. A preencher o vago. As descrições subjetivas tem este objetivo: tornar vago o que é descrito.
Não sei se ajudou a entender, ou enfim, a buscar algum sentido no meu texto. Os autores não precisam e nem devem explicar o que tentaram dizer, afinal, já está escrito e já foi dito. Mas gostei da critica, e tentei aqui dialogar. Se vc vai concordar ou gostar da cronica depois disso, ai fica a seu critério. Da minha parte, repenso algumas coisas para as próximas!
E apesar da ironia, vai aqui meu apelo: Cá entre nós, a discussão foi boa. Espero um dia escrever um texto que lhe agrade. E espero ter sua critica a favor!
Minhas palavras, Luna Lobão.
Olá, Luna Lobão.
Sim, foi muito boa a discussão.
Não pensei em fazer uma crítica negativa, mas em ser frio e confrontar sua opinião de escritora, que agora conheço.
No próximo texto, venha ele quando vier, me proponho a deitar sobre ele um outro olhar, e ser sincero em relação as coisas boas que certamente lerei – diferente do que fiz aqui.
Obrigado por me responder
Cabello
Gostei muito de sua capacidade descritiva. Você foi abstraindo desde a cena do metrô, trouxe à superficie sentimentos e lembranças ocultas dentro da mulher do metrô.
Gostei do estilo espero! por outro texto.